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Por que nós erramos novamente?

A extinção dos incêndios é como uma viagem com destino ao horizonte, que nunca poderá ser alcançado. Porém, a busca pelo conhecimento das novas tecnologias, possibilita uma ampliação das condições de segurança frente aos cenários de incêndios, reduzindo conseqüentemente a sua incidência. O horizonte é um conceito subjetivo e inatingível. O incêndio é real e catastrófico, cabendo-nos a sua prevenção, o seu combate e a sua extinção. Daí, o conceito de “o incêndio em extinção”.

Quando estamos no conforto de nossos lares ou envolvidos na rotina de trabalho em nossos escritórios, nem imaginamos que nos encontramos no interior de uma enorme fogueira potencial. Os materiais combustíveis são empregados de forma indiscriminada como elementos de construção, acabamento, mobiliário e de decoração. Destes, na ocorrência de um incêndio, podemos esperar a liberação de substâncias inflamáveis, tóxicas e asfixiantes. Nem sempre é possível evitar o uso dos materiais combustíveis nessas aplicações, mas ter a preocupação e o conhecimento pleno de como eles se comportam quando submetidos ao fogo é de extrema importância no projeto, no momento das especificações funcionais e estéticas dos ambientes construídos.

O nosso atraso no segmento da proteção contra incêndios pode chegar à 30 (trinta) anos frente à Comunidade Europeia e aos Estados Unidos, entre outros países mais avançados tecnologicamente do que o nosso. Normalmente, a existência de uma legislação exigente é o fator determinante para o avanço da cultura da segurança contra incêndio em todos os ramos da atividade humana, mas o estado pleno do que é “seguramente correto” só é atingido quando se busca e se realiza mais do que o mínimo exigido pelas legislações locais, com observância às normas técnicas e às novas tecnologias desenvolvidas mundialmente.

Hoje, com a “febre” da globalização, torna-se imperativa a adoção de um maior nível de segurança contra incêndios nas construções brasileiras, quer seja pela atual facilidade na absorção de conceitos e procedimentos internacionais ou pela determinação de entidades culturalmente mais avançadas na área da segurança contra incêndios. Podemos citar o fato de que a rede hoteleira do Rio de Janeiro foi obrigada a se adequar às exigências de entidades estrangeiras quanto as suas instalações físicas, assegurando a sua classificação (números de estrelas) frente à rede hoteleira mundial, principalmente no período que precedeu os Jogos Pan-Americanos de 2007. Como ficariam os nossos interesses em sediar a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e as Olimpíadas de 2016 caso tivesse ocorrido um incêndio letal durante o evento do PAN-2007 no Rio de Janeiro ? Estamos, realmente, totalmente preparados quanto à nossa segurança ? Os jogos terminaram e graças a Deus nada de sério aconteceu…

Novos conceitos e tecnologias, já em uso há alguns anos nos Estados Unidos, no Canadá, na Europa e no Japão, entre outros, devem ser difundidos aqui no Brasil por meio de cursos de extensão e até de graduação através das universidades e de entidades representativas, além de treinamentos extracurriculares dirigidos à proteção construtiva, abordando o Comportamento dos Materiais integrantes da edificação (de construção, de acabamento, de tratamento termoacústico, de decoração e de mobiliário) frente à situação de incêndio e, as Proteções Passivas Contra Incêndios (PPCI) como uma das principais formas de prevenção, abordando a estanqueidade da construção, a estabilidade estrutural e a ignifugação dos materiais combustíveis, tais como os plásticos, que são largamente utilizados nas construções atuais, sem qualquer tipo de ponderação. A nossa cultura começou historicamente pelo desenvolvimento das ações de combate e não pela prevenção construtiva. Assim, combate-se o incêndio ao invés de se evitar que ele aconteça. O Brasil tem que deixar de ”produzir somente bananas”, apesar de sermos um país tropical e, com certeza, agradecer sempre por ser “abençoado por Deus”.

Um ponto de extrema importância é a cultura desenvolvida sobre o assunto incêndio no Brasil. Não existem cursos regulares de formação e de especialização sobre a prevenção, a proteção e o combate ao incêndio. Alguns destaques são observados pelas tentativas de realização desses cursos, mas sem uma demanda (receptividade) adequada por parte da sociedade, inviabilizando uma adequada transmissão cultural à população, e principalmente à uma melhor formação da sociedade técnica brasileira. Hoje, existem poucos especialistas no Brasil, frente ao tamanho da sua população, e o conhecimento deles foi adquirido através da experiência profissional de cada um, já que a formação acadêmica na área de segurança contra incêndios é deficitária em todos os sentidos.

Devido a enorme extensão geográfica do território brasileiro (quinto maior pais do mundo), ocorrem diferenças climáticas, culturais e de infraestrutura social, podendo elevar localmente o risco de incêndio; que também é função dos padrões de arquitetura local, dos materiais empregados nas construções, da existência de sistemas e de equipamentos elétricos, do envolvimento de combustíveis sólidos, líquidos e gasosos, e principalmente da falta de conhecimento dos administradores e dos usuários (ocupantes), ao nível urbano e rural. A falta de cultura (ignorância) sobre o assunto incêndio reflete a fragilidade da nossa sociedade, que nem mesmo é capaz de exigir o seu direito à segurança por não saber como cobrar as providências necessárias junto ao poder público legislativo, seja ele municipal, estadual ou federal. Dessa forma, se torna dependente de uma decisão compulsória (regulatória) vinda na contramão, ou seja, de cima para baixo, através de leis, decretos e regulamentos que não tiveram qualquer participação da sociedade em sua formulação, sendo essa a parte mais interessada, apesar de ser totalmente desinformada e apática quanto aos conhecimentos necessários no segmento da segurança contra incêndios.

Qual é o sentido de se desenvolver tecnologias para os chamados “prédios inteligentes”, que dispõem de sistemas centrais de ar condicionado, modulados pela posição do Sol, de um controle total da edificação através de centrais computadorizadas que determinam o momento do fechamento e da abertura do prédio com base em temporizadores (timers) e de câmeras para controlar todos os movimentos internos, além do acesso e da saída de pessoas, entre outros também importantes recursos modernos, se não somos capazes de perceber que vivemos dentro de uma enorme fogueira que está prestes a ser consumida ? A realidade é que o fato de uma edificação ser protegida por um sistema de chuveiros automáticos (sprinklers) não é suficiente para torná-la totalmente segura. Inúmeros prédios providos de sistemas de sprinklers já foram incendiados, necessitando-se assim de algo mais, principalmente de um maior conhecimento sobre os cenários de incêndio.

Novamente, as nossas construções, quando comparadas às de países mais avançados, se encontram defasadas quanto a sua segurança em aproximadamente 30 (trinta) anos, principalmente na adoção de sistemas de segurança contra incêndios, resguardando-se algumas poucas exceções tais como as empresas multinacionais, principalmente devido a sua cultura nativa mais evoluída quanto aos aspectos da segurança.

Dentro das faculdades brasileiras de arquitetura e de engenharia civil, entre as outras formações em engenharia, é inadmissível a ausência de uma formação sólida em “Prevenção, Proteção e Combate aos Incêndios”, existindo excepcionalmente em alguns cursos como uma disciplina secundária e com uma carga horária reduzida, não acrescentando efetivamente nada ao conhecimento do futuro profissional.

A construção civil, como exemplo, tem o homem como o centro das suas ações, para a determinação do “pé direito” e, do tamanho das portas e das janelas, ou seja, das dimensões dos ambientes, objetivando o conforto e a satisfação humana. Não é possível que a segurança do homem não seja focada e eleita como sendo a principal atitude a ser tomada pelos técnicos (arquitetos e engenheiros, entre outros) e pelos administradores envolvidos nesse segmento tão importante, e que é o responsável pelas definições dos nossos ambientes de trabalho, residenciais e de lazer.

Em nossa pré-história, o homem primitivo vivia em cavernas e desenvolveu a habilidade de gerar e de manter o fogo aceso, principalmente devido as suas necessidades de segurança, permitindo assim que a nossa espécie sobrevivesse e se desenvolvesse até os dias de hoje.

Ponderando, é mais importante investirmos em um maior nível de segurança em nossas construções ou dirigirmos o nosso conhecimento técnico e as nossas reservas financeiras somente à estética, à funcionalidade e ao conforto humano, que são as bases da moderna arquitetura ?

A segurança contra incêndios é um investimento, e nunca deve ser considerada como uma sobrecarga nos custos da construção, representando atualmente cerca de 7% do valor total do empreendimento, em média.

Ao longo do tempo, novos conceitos e tecnologias de prevenção, de proteção e de combate estão sendo desenvolvidos, mostrando-se mais confiáveis e apresentando melhores desempenhos. Dessa forma, o conhecimento técnico no segmento de incêndio torna-se dinâmico, necessitando ser divulgado constantemente e cada vez mais aprimorado para se ampliar a segurança da sociedade humana. Assim, ratificando, a forma mais indicada e direta para se atingir o nível mínimo adequado da cultura de base no campo da segurança contra incêndio e pânico é através da realização de cursos de formação, aperfeiçoamento e atualização, por universidades e por instituições de classe especializadas no tema, visando uma disseminação de cultura, que é a nossa maior falta. Em um futuro, a médio prazo, poderá ser viabilizada a divulgação dos conceitos básicos, de riscos e de ações de segurança relativos aos incêndios, em escolas do ensino fundamental e do ensino médio, tal qual ocorre nos países mais avançados, consolidando uma base sólida para levar a nossa sociedade a uma posição de destaque mundial, talvez até como uma referência (benchmark).

Muito em moda, o “selo verde” (green building) das novas edificações reflete o reconhecimento de uma construção planejadamente sustentável, dentro de modernos padrões internacionais e em irrestrito compromisso com o meio ambiente. Dentro do possível, ampliando-se um pouco mais esse conceito, se torna oportuna a criação de um “selo vermelho” para premiar as construções “SEGURAMENTE CORRETAS”, ou seja, aquelas preocupadas de uma forma comprometida com a segurança humana, além do seu bem estar.

Assim, poderemos pensar que estamos agindo da melhor forma possível e com efetividade, para que a ocorrência de catástrofes como a da Boate Kiss em 27/01/2013, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, nunca mais volte a se repetir, não permitindo que os filhos amados das famílias brasileiras sejam ceifados e privados de um futuro de direito.

 
Robson Santos Barradas é Engenheiro de Segurança do Trabalho e Mecânico, Msc. Em Engenharia Ambiental, Presidente da SOBES-Rio – Sociedade de Engenharia de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, Membro do CB-24 – Comitê Brasileiro de Segurança Contra Incêndio da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, Diretor da RRJ Engenharia Ltda./ RJ, Professor do Curso de Engenharia de Segurança do Trabalho da UFRJ (Rio de Janeiro) e da HG2 (nordeste), Consultor Técnico da área de Segurança Contra Incêndios (proteções passivas) e de Tratamentos Termoacústicos.

5 comentários em “Por que nós erramos novamente? Deixe um comentário

  1. Parabéns meu caro Robson pela sua bela explanação. Você sabe muito bem que ainda estamos engatinhando neste campo de Prevenção e Segurança contra Incêndio, mas a esperança é a última que morre, então mantenha-mos a esperança de que as pessoas neste Brasil se conscientizem mais para termos uma prevenção e uma maior segurança para todos cada vez melhor, pois agora mesmo em matéria de Prevenção estamos muito mal mesmo, diria melhor não existe prevenção no Brasil e sim muita irresponsabilidade. Grande abraço e que as pessoas se conscientizem sobre este assunto muito importante onde há vidas humanas em perigo.

  2. Apesar do artigo ser de 2013 (Dedução pelos comentários acima), informo que existem cursos de especialização Lato Sensu no Brasil desde 2009. Recomendo a iniciativa da PUC/PR em ofertar o curso de Especialização em Engenharia de Segurança contra Incêndio e Pânico. Para conhecer mais sobre o curso, acesse o link a seguir:
    http://www.pucpr.br/especializacao/disciplinas.php5?curso=4462&processoSeletivo=383

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