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UFRJ: vítimas de incêndio no alojamento estudantil ainda tentam apagar ‘chamas’

Traumatizadas e sofrendo com precarização, elas afirmam: “É quase uma tragédia anunciada”

“Acordei achando que era briga, porque estava uma gritaria lá fora. Então só peguei o meu celular para ver a hora. Meu namorado levantou, botou uma blusa e abriu a porta do quarto. Quando ele abriu a porta, entrou muita fumaça, e como eu tenho bronquite asmática em um nível grave, praticamente desmaiei ali. Só lembro que tinha gente me vestindo, e enrolando vários panos na minha cabeça. Lembro de já estar lá embaixo quando parei para tentar entender o que estava acontecendo. E quando vi, já tinha gente se jogando da janela e os bombeiros não tinham chegado ainda”. Esse é o relato de Ana*, após passar pela situação traumática de ser a última aluna a deixar a moradia estudantil da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fundão, tomada por um incêndio na madrugada da última quinta-feira (3). Ela conta que saiu do prédio por volta de 4h30, enquanto os depoimentos sobre o início do fogo são de que tenha sido por volta de 3h.

Entre os aproximados 250 alunos afetados pelo incêndio, alguns optaram por ficar, temporariamente, instalados na ala A do prédio — a única reformada desde a construção do edifício nos anos 1970 –, ocupando corredores ou contando com a solidariedade de colegas, que abriram as portas de seus quartos para os desalojados. Outros preferiram dormir numa das quadras da Escola de Educação Física e Desporto da UFRJ (EEFD). A área, no entanto, teve que ser desocupada nesta segunda-feira (7), quando a faculdade voltou às atividades.

Nesta terça-feira (8), eles foram transferidos para o Hotel Ibis, no Centro do Rio. A reitoria informou que a contratação da hospedagem foi em caráter emergencial para o período de 30 dias, e que desde as 8h desta terça, a Superintendência-Geral de Políticas Estudantis (SuperEst), a Divisão de Segurança (Diseg) e servidores técnico-administrativos voluntários acompanharam os estudantes para a retirada de pertences do local incendiado.

“As pessoas aqui vivem passando mal de nervoso e com problemas respiratórios. Precisamos de atendimento psicológico urgente”, exclamou a estudante de jornalismo Carla*, responsável pelo grupo de Comunicação dos moradores.

De acordo com a reitoria, em nota, “quatro assistentes sociais e uma psicóloga atuam no local e um grupo de trabalho fará acompanhamentos prioritários na sexta-feira, na Residência Estudantil, às 12h (é necessário fazer cadastro no local)”.

Incêndio começou no 1º andar da Ala B e se alastrou para outros apartamentos

O incêndio

O fogo começou no primeiro andar da Ala B e se alastrou para outros apartamentos, sendo controlado por volta das 5h30. A primeira equipe dos bombeiros, que demorou cerca de 40 minutos para chegar, segundo relatos, não tinha estrutura para conseguir conter o fogo. Também não havia nenhuma planta do prédio disponível. Vários estudantes foram afetados pela inalação da fumaça, e um deles sofreu fratura na perna ao tentar sair do edifício e foi levado para um hospital da região.

Em nota divulgada em uma página no Facebook no último domingo (6), os alunos prejudicados pediram pela “garantia dos quartos de volta, segurança física e emocional para retornar aos estudos”. “Não sabemos o que pode nos acontecer de agora em diante. O nosso semestre está comprometido e estamos tentando ao máximo permanecer organizados para que não haja mais nenhuma perda”, diz a nota.

O reitor da universidade, Roberto Leher, está em contato com representantes do Ministério da Educação (MEC) e da Prefeitura do Rio para buscar soluções concretas e emergenciais para os alunos desalojados. Ele diz que toda a ala B será interditado para obras no telhado e substituição das redes elétrica e hidráulica.

A reitoria solicitou, ainda, a ampliação da oferta de vagas de moradia, visto que a UFRJ, atualmente, não tem condições de atender toda a demanda. Os laudos periciais, onde será possível determinar a causa do incêndio, ainda não foram concluídos.

“Os alunos perderam documentos, livros, roupa, teve gente que saiu descalça, teve gente que achou que ia morrer. O trauma foi grande, porque além de tudo, são jovens que moram longe de casa e dos seus parentes, e não sabem para onde vão, e como serão atendidos”, contou Carla*.

Seis dias após o ocorrido, os alunos tentam se mobilizar para arrecadar suprimentos mínimos para sobreviver à situação emergencial. “Ainda estamos tentando apagar incêndios, e se não é literal agora, é figurativo. Precisamos vestir as pessoas, dar comida, ver o que pode ser feito com relação à documentação, porque tínhamos estudantes estrangeiros também”, contou a estudante.

Ela divulgou uma lista em uma página do Facebook, com as necessidades primordiais, e ainda um e-mail de contato para efetuar doações: comunicacaoresidenciaufrj@gmail.com

“Aos poucos a superintendência tentou acessar alguns módulos do prédio, com bastante responsabilidade, para retirar alguns pertences. Só que alguns espaços ficam inviáveis e também não é recomendado por causa da perícia. Precisamos de tudo agora, desde absorvente e gilete à água, porque o bebedouro da ala A não aguenta a quantidade de pessoas instaladas aqui”, completou.

Corte de verbas

O incêndio levantou diversos problemas pelos quais as universidades federais do Brasil inteiro enfrentam, sendo o principal deles a falta de verba. A UFRJ não possui orçamento suficiente dentro do Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNaes), que atende apenas 15% da demanda de alunos. Criado em 2008, os critérios de seleção levam em conta o perfil socioeconômico dos alunos, além de critérios estabelecidos de acordo com a realidade de cada instituição.

“É uma briga para manter o processo de popularização dentro da universidade. Você vê o estudante negro e pobre sair do interior dele, chegar aqui e dizerem na cara dele que, apesar de você ter entrado por cota, não tem lugar para você ficar”, disse Carla*, completando: “O que nós precisamos é que o governo federal adiante as obras do alojamento prometido que já deveria ter saído há muito tempo. Só assim poderemos cobrar da reitoria”, disse a estudante, lembrando ainda que o número de evasão de alunos inscritos não são contabilizados, apesar de se saber que existem casos em que o estudante não consegue se manter um período sequer na universidade.

Para ela, existe uma urgência na necessidade de mudar a concepção de universidade pública, que hoje “sofre um desmonte do governo federal”, a exemplo da crise na Uerj, e o histórico de incêndios que a própria UFRJ vem sofrendo de alguns anos para cá.

“Tenho muito receio de que tudo isso venha a se tornar ainda um problema que caia nas costas dessas pessoas que estão nessa situação de vulnerabilidade. Além de serem alunos que vieram de longe e estudam em um espaço precarizado há anos tendo que manter notas, essas pessoas sofrem risco de vida e lidam com histórico de estupro e assalto dentro do ambiente universitário. Os reflexos disso vão voltar para as comunidades de onde essas pessoas saíram”, disse.

Ana*, apesar do trauma, se mostrou firme e disse, sem ressalvas, que não aceita a condição de “coitada”. “Nós não estamos aqui por pena. No meu primeiro dia na universidade, eu tive a completa noção de que as pessoas aqui [na moradia] são brilhantes, de todos os modos possíveis e permissíveis. Essas pessoas são a minha família”, concluiu.

Ela teve apoio do amigo Lucas* que, na ocasião do incêndio, foi o primeiro a socorrer os alunos no prédio. “Eu convivo com pessoas fortes, intensas e estudiosas, que não estão aqui de bobeira”, disse o jovem, acrescentando: “Nos prometerem um novo prédio que era para ser entregue em março. Chegamos a fazer todo o processo de recadastramento. Março passou, e não vemos nada. Era sabido que esse prédio já não tinha condições. É quase que como uma tragédia anunciada”.

* os nomes são fictícios a pedido dos estudantes

Fonte: Jornal do Brasil

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